Hoje, pela manhã, o café me pareceu mais amargo do que de costume, mesmo após colheradas generosas de açúcar ele ainda se manteve amargo. Às vezes o sono se desvencilha de suas pálpebras em meio às quatro da madrugada e foge por uma fresta fina da janela, seguindo a rotação da Terra, seguindo a noite, para se permanecer sono. Delirar em noites orientais. Me pareceu algo assim, talvez bem menos lírico, diria até mais irritante. Acordei.
Nunca fui um grande apreciador das manhãs. Elas podem ser agradáveis, frescas ou diminutas em raios UV, mas são por demais silenciosas, um silencio peculiar, não como o das noites que em seus sussurros vão apenas rememorando lembranças recentes, as manhãs se aquietam frente as milhares de probabilidades por vir. Elas sentem medo de sí, e isso me apavora.
Não sei exatamente o que me fez acordar tão cedo. Talvez um sonho mal sonhado, um ronco arranhado ou um galo, vizinho de minha infância, que insistiu cantar em minhas veias. Cruzei meia dúzia de pernas matutinas que corriam ao banho, ao fogão, ao carro, à cama. A pressa lhe tira a atenção, ninguém quer ter uma manhã de atenção.
Fiz meu café, 4 colheres de açúcar. Amargo.
Lembro de um amigo que costumava dizer que homens de verdade não tomam o café adocicado. “Homens o tomam puro, amargo, revigorante. Só assim se acorda totalmente”. Estranhamente esse mesmo amigo não era capaz de levantar-se antes das 10:00.
Por fim, sentei-me numa velha cadeira de plástico e assisti ao espichar da vida que se ergue com um arrepio. Vagarosamente despejei o café negro sobre a terra de um vaso de flores murchas e fitei meus próprios sapatos. Por hoje não desejava despertar por completo.
Sala de espera
20 horas atrás
